Marte reviewed A Falência by Júlia Lopes de Almeida
Muito bom em construção narrativa, e mesmo assim, delimitado pelo racismo
4 stars
Content warning Inclui revelações importantes do enredo
A falência é um romance da autora brasileira Júlia Lopes de Almeida, publicado inicialmente em 1901. A edição que li foi lançada pela Editora Unicamp em 2018, e contém notas de comentário pela crítica literária Regina Zilberman.
Júlia Lopes é conhecida por ser uma escritora de renome, mas principalmente, e infelizmente, por ter sido barrada de ser uma das primeiras 40 imortais da Academia Brasileira de Letras. Na época, os outros imortais decidiram manter uma ABL estritamente masculina e elegeram o marido de Júlia, Filinto de Almeida, para a cadeira. Não acho que essa seja a melhor forma de lembrar de uma escritora, mas registro para conhecimento.
A falência acompanha a história da família de Francisco Teodoro, importante comerciante de café e outros bens de exportação, residente no Rio de Janeiro. Como o próprio título da obra informa, o desdobramento é a falência do negócio de Francisco, mas também a falência do próprio núcleo familiar, paralelamente e agrupadamente ao desmantelamento do empreendimento. Ao longo da trama, Júlia Lopes aborda o endividamento por ações no mercado financeiro, as tensões do momento pós-proclamação da República nas elites locais, a dicotomia portugueses versus brasileiros quando analisada por meio dessas tensões, mas principalmente a condição da mulher branca na sociedade, e as hipocrisias da sociedade burguesa luso-brasileira.
A obra se passa em 1891, sendo publicada, vale lembrar, em 1901. Dessa forma, é contemporânea a obras como Dom Casmurro, de Machado de Assis, publicada em 1899, e O cortiço, de Aluísio Azevedo, publicada em 1890. É influenciada e influencia nas escolas literárias realista e naturalista, empregando elementos abertamente deterministas em seu repertório, apesar de não necessariamente repetir a fórmula dos dois romances anteriormente citados. A falência é um romance urbano, passado inteiramente nos bairros centrais do Rio de Janeiro, então capital do país recentemente republicano, afastando-se, portanto, de tendências românticas de ufanismo do interior, do campo e da natureza como elementos constitutivos do ideário brasileiro. Assim como O cortiço, o livro conta com um centro de personagens muito elaborado, com diversas figuras, o que contribui para certa confusão no começo da obra. É comum que alguns leitores admitam se sentir sobrecarregados de tanta informação de personagem no começo, mas, com o tempo e a devida insistência, conseguimos acompanhar os diferentes caminhos de todas. A maior parte dos personagens ganha seu próprio final explícito, sem final muito aberto. Além disso, o narrador é onisciente, em terceira pessoa, o que facilita a navegação nesse universo.
O tronco da história segue Francisco Teodoro, português orgulhoso, migrante para o Brasil império, orgulhoso de seu comércio, um negócio construído na base já envelhecida de um suposto - romântico - labor árduo. Ele é contraposto a um personagem que jamais chegamos a conhecer, apenas nas ideias do comerciante, o concorrente Gama Torres, brasileiro nativo. Este, supostamente, teria construído a fortuna não na base do trabalho árduo, mas na especulação do incipiente mercado de ações. Esses acontecimentos narrados têm como contexto histórico o encilhamento, descrito por Gustavo Franco no Atlas Histórico do Brasil como "o episódio de euforia especulativa e crise financeira em torno da criação e negociação de ações e debêntures de novas companhias na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro e seus arredores, que teve lugar durante a transição da Monarquia para a República e também nos primeiros anos do novo regime." A versão de A falência que li conta com comentários de Regina Zilberman que explicam mais a fundo as relações entre os acontecimentos e a narrativa.
Fica claro que a derrocada da fortuna de Francisco Teodoro acontece porque, temeroso por ser deixado para trás por concorrentes mais jovens e ganancioso por mais dinheiro, ele é incapaz de ignorar o ambiente de colegas que o pressionam para investir. Durante a história, notamos pelas diversas relações familiares e de amizade do homem que sua vida pública é uma farsa construída pelo dinheiro, o verdadeiro motivo de vida do protagonista. O carro-chefe da narrativa é a derrocada moral e psicológica dum homem que vive atormentado do medo da pobreza, não só pelas dificuldades, mas porque se acostumou a ser recebido com honrarias. Ironicamente, nesse cenário, o trabalho manual é retratado de forma ambivalente: tanto exaltado, quanto rechaçado pelos burgueses portugueses (tido como "coisa de preto"). A narrativa utiliza de elementos naturalistas para descrever o espaço urbano e de trabalho: tratam-se de descrições animalizadoras e racistas.
No tocante ao naturalismo, duas personagens e duas cenas são colocadas como exemplos importantes dessa influência. Nelas, os dois, homens brancos abastados, vagam por bairros pobres do centro do Rio de Janeiro, em visitas que lembram abertamente os escritos de O cortiço. A autora passa dois capítulos inteiros relatando o choque dos homens brancos em verem as condições de pobreza e miséria vivenciadas pelas populações pretas na cidade. O que poderia soar como uma denúncia das mazelas deixadas por um processo abolicionista despreocupado com a população negra acaba saindo como uma exotização animalizante. Esse recurso é descrito por Regina Zilberman como "flâneur".
De longe, o maior incômodo para uma leitora de 2026 - no caso, eu - é o tratamento das questões de raça, racismo e determinismo. Além dos capítulos supostamente dedicados às mazelas urbanas da população ex-escravizada, a autora faz referências diversas às políticas de branqueamento via imigração massiva de europeus brancos, principalmente italianos. Nesse processo, cria uma descrição desumanizadora dos trabalhadores pretos, exemplificada pelo primeiro capítulo. Conforme exposto pela pesquisadora Laísa Marra em seu artigo "A aventura burguesa: trabalho, casamento e traição em 'A falência'", há uma utilização de extenso linguajar racista, associando trabalho "bruto" com negritude e ambos à animalização.
Uma cena particular que me incomodou bastante aconteceu na casa das tias de Camila, a esposa de Francisco Teodoro e uma das protagonistas. As tias são as idosas Joana e Itelvina, que moram juntas num palacete decadente, e o acontecimento se desdobra quando Ruth, filha de Camila, vê o tratamento degradante que uma serviçal negra e jovem, Sancha, é submetida na casa das tias. Ruth intervém, indignada com a situação, e incentiva Sancha a fugir. Essa fuga acontece e não sabemos mais da personagem, não impactando em nada a obra. Essa situação narrada é racista, não só pela linguagem utilizada na narração, e reflete o ideário da Princesa Isabel benevolente que supostamente liberta os negros de sua condição.
Combinando com as cenas de descrição da miséria da população negra, seria até possível questionar se não se tratasse de uma crítica. Entretanto, mais de uma vez, Júlia Lopes lança mão de argumentos deterministas, não irônicos, que apontam suposta naturalidade na submissão dos negros na sociedade brasileira. Um exemplo é quando Noca, a mulher negra criada da família de Francisco Teodoro, é descrita admirando à distância o patrão Mário, filho primogênito de Francisco, por ser moço, branco e bonito, apesar de este maltratá-la, tanto a ela quanto a Nina, a agregada da família. Ela apresenta até um comportamento ciumento em relação ao rapaz, do qual cuidou desde criança.
Sobre o aspecto de gênero, ele é central para o livro, ainda que centralizado nas especificidades das mulheres brancas, mais especificamente os impactos do contrato de matrimônio para as mulheres brancas e para a sociedade brasileira. Para Júlia Lopes, o casamento funciona como engrenagem central nas relações sociais burguesas: casa-se para salvamento financeiro, para garantia de recepção das honrarias, para prosseguimento os negócios da família. Para as mulheres solteiras - como Nina e Catarina, sobra a dedicação à servidão doméstica discreta, longe dos espaços públicos por lhes ser proibido. O adultério surge, naturalmente, como afronta velada às instituições: dr. Gervásio, médico que aparece com frequência na residência dos Teodoro, é, muitas vezes, o pai moral da família, e Camila opera pelo adultério o estabelecimento das suas verdadeiras necessidades afetivas e sexuais - até o acontecimento-chave da trama. Ruth, filha mais velha, existe como inversora do estereótipo da mulher incapaz de racionalidade e inteligência, numa sociedade que ainda não está pronta para que seja uma chefe de família no lugar do filho primogênito. Nesse sentido, é possível que a personagem seja uma projeção autoficcional da própria autora. O desfecho de Ruth aponta como a única salvação para a mulher seja a educação intelectual. No caso da personagem, especialmente voltada à música.
Voltando ao caso extraconjugal de Camila, a mãe da família, talvez seja nela o centro dessas colocações políticas acerca do casamento. Camila mantém, além da relação já citada com dr. Gervásio, uma relação não-recíproca com Rino, um navegador. Cada um dos homens mantém fantasmas de mulheres marcadas por adultério: dr. Gervásio, homem casado, abandonou a esposa por ter sido traído pela própria - fato que só é dado conhecimento ao leitor e a Camila no final da narrativa. Já a mãe de Rino foi assassinada pelo marido, pai dele, pelo mesmo motivo. A ironia é que os dois homens envolvem-se com o mundo do adultério eles próprios, mas para os homens, o adultério não tem impactos sociais relevantes - a vida segue a mesma.
Muitas obras realistas tratam de adultério feminino, mas, primeiramente, não só a desgraça de Francisco Teodoro não tem nada a ver com o adultério cometido por Camila - é possível que ele de fato nem desconfiasse do assunto, absorto que era no próprio negócio. Em segundo lugar, sua morte por suicídio é descolada completamente da situação conjugal, o que inverte as expectativas da narrativa e torna Camila como a pessoa que se vê traída pela sua retirada brusca do sonho da burguesia. Essa observação é anotada por Laísa Marra em seu artigo: a pesquisadora trata a sedução de Francisco Teodoro pelo mercado de ações como uma relação propriamente erótica, espelhando a de Camila com Gervásio e efetuando sua traição à família, fatal para a organização dela. O próprio Francisco já havia traído o relacionamento com Camila da forma tradicional anteriormente, mas é somente no envolvimento erótico com a aventura do investimento financeiro que ele conhece efetivamente sua ruína.